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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Poema do querer-te...

Amilcar Bernardi
Eu te quero com tua alma de passarinho
Para que meu corpo possa ser teu ninho...

Eu quero que não vás embora.
Quero ser canteiro e tu rosa.

Quero ainda mais a ti para mais ainda te querer.
Quero que sejas rima para eu poemas escrever.

Quero a ti doce mulher feita de raios de sol.
Quero-te porque fazes de mim um girassol.

Quero-te porque és bela mulher de alma bela.
Quero que tu sejas tinta para que eu seja aquarela.

Quero que tu sejas para mim estrelas e luar
para que na noite do  meu olho tu possas brilhar!

Eu muito te quero e muito mais vou te querer
para que eu possa mais e mais poemas escrever!



domingo, 30 de outubro de 2011

Política: espelho de Sísifo.

Prof. Amilcar Bernardi

Na historia infantil clássica, a rainha tresloucada pergunta ao espelho: há alguém mais bonita do que eu no reino?  O espelho como todos sabem, não responde como a toda poderosa e bela rainha queria.  Enraivecida, manda matar a bela mocinha. O espelho tem dessas coisas. Nem sempre mostra o que queremos ver. Então somos tomados por emoções incontroláveis.
A política é nosso espelho. O que acontece espelha quem somos. Podemos até não gostarmos, afinal, nessa área, a verdade sempre dói.  Porém, não podemos mandar matar ninguém nem destruir o que não gostamos na imagem apresentada. Fica só a angústia e a tristeza com o que vemos de nos mesmos. Como no mito de Sísifo (Sísifo foi condenado a rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo), de tempos em tempos somos chamados a reconstruir nossa imagem, mas o resultado é sempre o mesmo.
O fundo mais profundo que poderíamos descer aconteceu. Olhamos o espelho da política e nos vemos Tiririca! Palhaços, ignorantes e maliciosos. É esta a imagem que está nos incomodando. Os espelhos não mentem. Apenas refletem o que se posta à frente deles. Não podemos quebrar o espelho nem podemos negar o que nele se reflete. É a nossa maldição de sujeitos civilizados e construtores da cidadania.
A política é nosso espelho de Sisifo, sempre mostrando que tudo se repete e reflete!  Esperando-nos nas eleições seguintes estão milhares de Titiricas. O triste espelho da política nos mostrará novamente nossas escolhas a modo titiriquês. 

sábado, 29 de outubro de 2011

O amaldiçoado...

Tristemente ferido:
Flecha mágica e treda!
O peito fraco, ferido,
Vitimado por maldição negra!!!

Veneno na rápida seta
Pelos deuses lançada!
Ah! Desgraça! Ela acerta
A alma já dilacerada!

Com a chaga aberta
Aceita a terrível sina!
Agora com sangue assina
O terrível nome: poeta!

Louco, quer apenas poesia;
Doente quer apenas sonhar!
Dizem: “è loucura tua fantasia!”
“Morra se queres poetar!!!”

Doente d’alma definha pelas ruas,
Louco esta sempre a escrever...
Na sarjeta padece, fica a morrer:
Não vê o coveiro, sonha com mulheres nuas!!!

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A vez primeira...

Qual inúmeros vaga-lumes
ou como espalhados perfumes
teus encantos por aí vão...

Qual do relâmpago o clarão
em mágica noite rara:
Ah! Em nada se compara

Teus juvenis encantos!
Teus luzentes cabelos
tão cheios de desvelos

fazem sutis acalantos
na tua face clara...
Que verso se equipara

A essa mulher-poema?
A beleza dela condena
as moças todas a feiúra!

Com demasiada usura
para mim a desejo!
Ela é tremendo lampejo!

Ao vê-la na vez primeira,
inocente poetinha,
tanta luz ela tinha
que provocou-me cegueira!

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Ela...

Amilcar Bernardi
Um dia ela atiça  no outro é preguiça.
Amalucada! Um dia odeia, no outro é apaixonada!
Ela desanda quando anda.
Quer de onde esta partir, mas não sabe para onde ir.
Está sempre indo e sempre chegando... sonhando!
Louca, ensandecida. Nunca está aqui, perdida!
Está lá sempre.  Sempre lá, aqui nunca está.
Sem explicação. É furacão.
Aloucada! Sempre sozinha quando acompanhada.
Quando o poeta a acha ela se dilui, se esfumaça!
Ela vem se indefinindo, dando tchau e partindo!



sábado, 22 de outubro de 2011

Mania de fotografar 04 - Janela florida

Manía de fotografar 03 Navegar é preciso

Manía de fotografar 02 - Ponte

Manía de fotografar 01 - Triste leitura

Ritchie Valens

1959

Amilcar Bernardi


Richie Valens tocando,
Rocking Roll no ar!
Eu não sou desse lugar!
Sou do tempo passado!
Sou descompassado,
o ontem é meu passo!
Deus! No compasso
das mocinhas envergonhadas,
no voar dos carros envenenados!
No ontem eu ando!
No hoje desando
numa incrível dor!
Ah! Antigo amor,
de épocas passadas!
Épocas encantadas
que não podem voltar!
Richie! Como posso amar
se hoje os amores nada valem?
Tequila, Rock e Valens!
Máquina do tempo, me leva embora!
A modernidade não é minha hora!

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Comentando artigo da Nova Escola

A concepção de educação está anêmica de reflexão

Li o artigo “Eles e a repetência: a retenção não ajuda a aprender, mas pais (e alunos!) defendem a medida”. O texto explora a questão sob o ponto de vista da aprendizagem ou não aprendizagem dos alunos.  Nele é estabelecida uma relação reter/não reter X boa/má qualidade da aprendizagem.   Entendo a preocupação do artigo com o aluno e com a qualidade da aprendizagem, porém, são esses os únicos elementos que contam?
Não. A retenção tem outros vieses possíveis e interessantes.   Vejam que o elemento determinante (mas não único) para passar de ano é o sucesso nas avaliações (provas, trabalhos...).  Então não podemos esquecer que essas avaliações são sempre diagnósticas. Diagnosticam o que? De um lado a qualidade da aprendizagem. Do outro lado, a competência do professor em elaborar a avaliação e sua performance na aula. Ambos os lados são importantes e não excludentes.
Quando avaliamos o aluno na busca do que ele e nós podemos melhorar, a questão da retenção fica em segundo plano.  Não podemos comparar os alunos entre si, podemos avaliar os avanços que eles tiveram sobre sua própria história como aprendizes.  A avaliação nos conta como a criança era e como ela está hoje, nos auxiliando a projetar o futuro. A aprovação para o ano seguinte é secundária sob este ponto de vista. Isso porque o professor, a coordenação e os gestores estão também sendo avaliados.
A questão referencial é a seguinte: o ano letivo é um processo entre a matrícula e o resultado final. Como está mesmo esse processo?  Por que sentimos que o resultado é mais importante que o próprio processo? Quais os valores que perpassam o fazer nas escolas? Ensinamos porque e para quem? Aprendemos por quê? Por que alguns saberes são considerados necessários e outros não? Por que a retenção é encarada como insucesso e não apenas mais um tempo para a aprendizagem?
A concepção de educação está anêmica de reflexão.  Poucas, pouquíssimas pessoas preocupam-se com as questões realmente pertinentes.  Cada vez mais o ensino está desinteressante para as crianças e jovens em sala de aula (estudam muito pouco) e para os adultos (não desejam ser professores).
Há muita reprovação de alunos porque o processo está reprovado, porque não queremos pensar para onde estamos indo.  Parece que é imperioso todos estarem matriculados em todas as escolas. É uma corrida de muitos onde poucos refletem sobre o caminho a seguir e para onde é melhor ir. Isso sim me assusta.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Autoria

Prof. Amilcar Bernardi
O pessoal esta cada vez mais apegado aos teclados. Pegar uma caneta é cada vez mais raro. Talvez somente na escola o uso das canetas, dos lápis e da escrita cursiva aconteça com frequência. Fora do ambiente escolar, é o teclado que domina.
O caso é tão sério que há uma discussão sobre se a escrita manual está obsoleta.  Afinal, teclar palavras é mais fácil, mais rápido e sempre é legível. É muito simples tocar em uma tecla e o chip escolher a imagem da letra a ser colocada na tela! Nunca mais queixas de má caligrafia!
Escrever através do toque causa um novo jeito de usar os dedos e as mãos. A motricidade sofre modificações. Talvez, em função dessas modificações,  os cirurgiões sofram mais para manipular minúsculos bisturis. A manicure talvez tenha mais dificuldade em embelezar com desenhos tão pequenos as unhas das clientes. Mesmo assim, penso que isso seria superado através do Ensino da arte com seus pincéis e canetas coloridas. É provável que outras atividades substituíssem os movimentos precisos da caligrafia. Isso salvaria as pessoas de perderem habilidades motoras tão importantes.
Creio que o problema é ainda maior. Caso os teclados substituam a escrita cursiva, surgirá a questão da autoria. A letra digitada não é minha, é da máquina. Qualquer outra pessoa produzirá um “a” idêntico ao meu “a”. Ninguém será o artista criador das palavras grafadas à mão.  Todas as palavras escritas teriam a mesma aparência. Seriam palavras grafadas, mas sem autores, sem os artistas que “pintaram” aquela obra de arte irrepetível, que é a letra. A letra cursiva é a assinatura de quem escreve. Autor é aquele que é responsável pela obra, é a causa primeira e principal da obra. Nesse momento em que eu escrevo através do teclado do meu computador, sou o autor das idéias, mas não das letras que estão aparecendo no monitor. Elas são obra dos chips, nada tem a ver comigo. São letras prostituidas. São letras iguais para todos e todos as podem possuir.
Num mundo onde as pessoas cada vez mais criam menos, numa realidade onde muito mais as coisas são copiadas, retirar das pessoas o direito de serem autores de suas próprias letras é um crime contra a humanidade. Quero afirmar meu direito de ser o artista, o criador inimitável das minhas letras. Elas são minha obra de arte. Por favor, não deixem que acabe mais uma possibilidade de ser autor! Não copiem letras do teclado! Façam sua pequena revolução! Escrevam, escrevam muito e sem parar. Somos os senhores dos teclados não seus escravos.
Eu sou um artista, um desenhista muito especial. Eu desenho minhas letras como Michelangelo pintava suas obras primas.

domingo, 16 de outubro de 2011

Ninguém deve nada a ninguém.

Prof. Amilcar Bernardi
  
A internet trouxe uma aceleração incomensurável para o fluxo de informações e contra-informações. As grandes redes televisivas não conseguem sequer acompanhar a velocidade do que está sendo informado nos blogs, no Face, no Twitter e nas redes similares on-line. O colapso é ainda maior porque, as grandes mídias tradicionais são movidas a peso de ouro. Qualquer programa televisivo ou até jornal impresso, depende dos anunciantes. Suas estruturas são complexas, lentas, caras, dependentes de patrocínios.  Cada informação dispensada por tais empresas são como canhões, tem grandes impactos.  Portanto, estão sujeitas a processos judiciais caros, longos e muitas vezes com desfechos injustos.
A grande imprensa tem uma relação incestuosa com a política partidária, muitas vezes para poder sobreviver. Movem imensas quantidades de capitais e promovem crescimento econômico, porém, um revés na economia globalizada e o pior pode acontecer. Os leitores, ouvintes ou telespectadores são clientes antes de tudo. As notícias têm que serem apresentadas de maneira a minimamente agradar pela qualidade e beleza. Além disto, se for TV, depende de toda uma parafernália para que o sinal seja de qualidade. Se jornal, até seus entregadores são importantes. Nas grandes empresas do ramo a notícia é meio para um fim, a manutenção da empresa e, preferencialmente, não só manter, mas dar lucro. As mensagens são impessoais, mas, têm que agradar as pessoas, indivíduos com gostos irrepetíveis e cada vez mais exigentes.
No ciberespaço o trabalho das mídias off-line está sendo capilarizado e pessoalizado. Pessoalizado porque as pessoas acrescentam às notícias das grandes mídias suas experiências, expectativas e críticas. Os indivíduos vão para seus Pcs e refazem, personalizam, colorem as informações e passam adiante pela rede. Os internautas, polinizadores, dão (re)vida ao comunicado pela grande imprensa e repassam um tanto de si junto com as informações. Os cidadãos cibernautas não querem patrocinadores, não tem mega estruturas e nem querem convencer. Armados com seus laptops vão à luta, como beija-flores com pólen nas patas, voam por aí polinizando livremente. As pessoas comunicam agora de maneira personalizada, recriando. Comunicam pelo prazer de comunicar, de fazer-se ouvido, de fazer parte de uma gigantesca rede informacional. Teclam sem saber para quem. Teclam para outros teclados reteclarem. Fazem crítica contundente, provocam medo nos poderosos. Não precisam prestar contas para ninguém nem produzir textos elaborados. Isto porque não tem consumidores do outro lado do monitor. São livres. Se não gostam bloqueiam ou deletam. Se gostam, viram seguidores e recomendam sites, blogs e pessoas do Twitter. Neste mundo de ninguém, todos são donos dos seus narizes, ninguém deve nada para ninguém.
O mundo ciberinformacional é cheio de perigos. Tudo que é dito precisa ser checado. Como todos são dignos de serem ouvidos na rede, todo o cuidado é pouco. Porém, os cibernautas são coerentes com seus modos de pensar. Não teclam o que não querem teclar. Comunicam por prazer. Comunicadores e receptores se confundem na velocidade on-line: ao mesmo tempo que recebem, emitem. Tudo a um tempo só. Neste sentido a verdade pessoal se apresenta nua e crua. Desde que eu tenha bom senso, digito o que quero digitar. A censura inexiste. Ninguém deve nada a ninguém.


Denúncia...

Amilcar Bernardi 

Livros fechados
Planta de plástico em pé
Na xícara frio o café

Pinga luz pela vidraça
Solidão pelos cantos
A pouca luz tudo embaça

Desamor esvoaçando
O silêncio faz companhia
Pra quem já não faz poesia...

Corpo parado, vazio...
Olhar imobilizado
Já não escreve o teclado

Percebam!!!!

Despoetaram o poeta
Despoetaram  o mundo
Morre o vate em silêncio profundo!


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Somos intertexto e contexto.

 Prof. Amilcar Bernardi

Somos textos. Cada um de nós é um texto a ser lido. Cada roupa, cada trejeito, cada  gesto, cada palavra dita compõe algo a ser lido. Somos um poema, temos informações harmônicas entre si. Cada sujeito tem uma sintaxe muito especial. Estamos expostos no mundo, estamos aqui para sermos lidos.
Somos pausas, somos exclamações, somos pontos e vírgulas todos os dias. Somos signos para serem decodificados. Apenas pelo fato de existirmos as pessoas que nos rodeiam, que sabem de nós, são obrigadas a encontrar um sentido para nós, um significado para o que estamos afirmando com nossa presença. Somos frases, somos textos complexos.
Tu e eu somos citados, parafraseados e parodiados todo o tempo. Estamos e somos nos discursos alheios. Nos tornamos imagens, palavras e discursos nos outros. Por isso somos muito importantes, fazemos a diferença porque somos fala e provocamos falas. Cada um torna-se vocabulário e conhecimento para outros.
Somos intertextos. A presença discursiva das pessoas invade o que eu sou. Eu falo o já falado. Eu comunico o que já foi comunicado. Porém quando me dou a conhecer, quando me dou à leitura de quem quiser, passo a ser parte do repertório alheio, passo a ser contexto para o outro.
As pessoas são informações que penetram em mim e me constituem. Da mesma forma que passo a constituir todos os que entram em contato comigo.
A humanidade é um grande comunicado onde cada um é uma palavra, pontuação ou verbo. Juntos constituímos um enorme texto chamado humanidade.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A morte do vate!

Bárbaros barbados!
Em cavalos aloucados
Vem em torpes bandos!
Anjos arcanjos
Tremem e deixam o poeta só!
Os vândalos levantam pó!
Espadas erguidas!
Melenas longas e fedidas,
Suor faz a pele deles brilhar!
Cavalos loucos a relinchar,
Lanças em riste!
O chão e tudo que existe
Treme embaixo das patas!
Bárbaros, psicopatas
uivam ameaçadores!
Batem tambores,
Espadas no ar!
Como búfalos avançam,
Como loucos cantam!
Bárbaros por todas as veredas,
Loucas faíscas e labaredas
Das armas saltam aos borbotões!
São como magmas de vulcões
Tudo destruindo e matando!
O vate frágil, chorando,
Abre o peito à pérfida falange!
Como lança a caneta,
Como escudo a poesia!
Morre: o poeta vai embora como cometa!
Morre: o poeta vira sonho e fantasia!


domingo, 9 de outubro de 2011

O cinismo de Antístenes, o aluno adolescente e o barril


Prof. Amilcar Bernardi


Os antigos atenienses, pós-socráticos, tinham outro sentido para a palavra cínico. Os cínicos eram seguidores de Antístenes.  Este pregava a supremacia da virtude e a inutilidade das coisas materiais. E como esses seguidores eram indiferentes às coisas materiais, tornavam-se superiores à maioria das pessoas (frágeis porque podiam ser atingidas através de suas posses).  O que importava é a pureza da alma e a liberdade, a não-sujeição a ninguém; muito menos aos desejos.
Diógenes é um cínico famoso. Vivia dentro de um barril e não possuía mais do que uma túnica, um cajado e um embornal de pão.  Alexandre Magno um dia perguntou-lhe se ele tinha algum desejo e disse-lhe que, caso tivesse, seu desejo seria satisfeito. Ao que Diógenes respondeu: "Sim, desejo que te afastes da frente do meu sol". Com isto Diógenes queria demonstrar que era mais rico e mais feliz que o grande conquistador. Diógenes tinha tudo o que desejava.
Hoje com alguma curiosidade vejo inúmeros adolescentes tendo uma atitude que me lembra o cinismo. Mera lembrança é claro.
No corredor da escola está o aluno. De nada precisa além de sua roupa, piercing, tatuagem, penteado e sua pasta atopetada de material escolar.  A felicidade está dentro dele mesmo, de nada mais precisa. Quando toca a sirene para o início da aula ele permanece no corredor. Então o professor diz que ele ficará fora da sala de aula. O aluno, na indiferença de quem tudo tem e de quem nada precisa, encolhe os ombros. Seu olhar sereno e o sorriso tranqüilo autorizam o mestre a deixa-lo para fora. Esse jovem nada mais precisa além do MP4, do aparelho nos dentes e da sua sabedoria. Mostra sua superioridade e sua riqueza interna rejeitando a escola.
O “aluno-diógenes” quando interpelado pelo diretor, assim como Carlos Magno interpelou o sábio grego, responde: “Diretor, desejo que te afastes de mim, da minha vida, da minha namorada e da minha felicidade ignorante dos temas acadêmicos”.Tamanha lucidez do aluno-sábio impressiona o diretor, que chama os pais dessa feliz criatura, para que possam, juntos, entender tal filosofia complexa. Mas essa filosofia é por demais difícil para se compreender em um ano só. O aluno então é convocado a repetir o ano letivo para aprofundar suas meditações. Repete de ano inúmeras vezes para ampliar sua felicidade interior e, quem sabe, fazer discípulos. Mas os demais pais, que não possuem condições intelectuais para entender o “aluno-diógenes”, impedem que seus filhos se tornem fiéis discípulos. Solitário, mas feliz, o sábio adolescente segue seu caminho.
Estamos cheios de “alunos-diógenes”. Querem passar a adolescência felizes e auto-suficientes.  Entra ano e sai ano e eles estão lá. Sábios, imperturbáveis e... cínicos (no sentido grego – é claro!). Fico feliz com tal pureza de espírito e largueza de horizontes. Mas também fico um tanto preocupado. Será que ainda nos dias de hoje é possível viver dentro de um barril e não possuir mais do que uma túnica, um cajado e um embornal de pão?
Aluno-diógenes”, é bom lembrares que tal filosofia dura só a adolescência. Depois, o velho barril filosófico vai para a tua garagem ao lado do carro da família que está indo para a praia (com tua esposa e teus dois filhos pequenos). Mas antes de viajar é bom fechares bem a casa que os ladrões estão soltos, ligar o alarme, contratar a firma de segurança. É bom deixares pago a água, a luz e o gás.  Ah! Não esqueças de levar esta crônica para que os teus filhos pequenos leiam... porque um dia eles também serão filósofos adolescentes. Entra ano e sai ano e eles estão lá...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A terrível experiência na floresta

Achei que conhecia aquela floresta. Muitas vezes por ela andei e acreditava conhecê-la. Coisa de gente jovem e inexperiente, confesso. Porém, ficou a lição: nunca subestime os perigos da floresta. Sempre há surpresas e de cada canto algum animal pode saltar e ferir.
Naquela floresta de palavras, as árvores de sílabas eram altas, quase tapavam o sol. Era difícil guiar-se. Então eu me perdi.  Cachoeiras verbais, enormes, saciaram minha sede, mas o perigo de cair nelas, ser tragado e morrer sem saber nadar, era enorme.  Resolvi, para sair daquela selva perigosa, seguir as águas do rio. Pareceu-me mais fácil.  Mera ilusão! Concordâncias verbais nadavam perigosamente naquelas águas. Mesmo eu ficando nas margens, elas olhavam-me a espera da queda fatal. Era aterrador. Uivos das concordâncias nominais surgiam da selva densa. Fiquei terrificado. Se caísse nas águas sem saber nadar, seria devorado ou afogado. Se optasse por ficar às margens, poderia ser atacado a qualquer segundo, pois não conhecia bem essas concordâncias verbais. Como seriam? Talvez, pelo medo que sentia, fossem criaturas enormes a espera do meu erro. Fatalmente eu iria morrer nos dentes delas.
Já era tarde. Ia anoitecer. Então pensei em fazer uma fogueira para assustar as feras. Percebi que iria ficar a noite na floresta das palavras. Acalmei-me. Respirei fundo. Era só fazer fogo. As feras e insetos fogem do fogo.  Juntei galhos de dicionários já mortos pelo tempo ou derrubados por tempestades gramaticais.  Os ventos sempre derrubam das árvores dicionários, galhos que são úteis aos perdidos. Juntei vários deles e fiz uma estrutura para por fogo.   Após as chamas, fiquei mais aquecido. As trevas da noite estavam rapidamente tomando a floresta.  O medo era terrível. Eu ouvia as acentuações gráficas rastejarem pelo mato. Se fossem venenosos eu estava perdido! Era uma picada só e eu morreria sem ajuda. Tremi ao lembrar-me que nas selvas não existem gramáticos para salvar os incautos perdidos! Era meu fim, com certeza.
Ditongos voavam e picavam minha pele. Os hiatos eram os piores, pois eram maiores. Qual repelente seria forte o suficiente para afastá-los? Nenhum! Minha pele ardia, mas eu era jovem e podia suportar. Ao fundo da paisagem negra da noite, tritongos rugiam. Creio que caçavam a noite, nem sei. Eu sabia que, quando o dia amanhecesse, alguém viria salvar-me! Muitas pessoas sabiam que eu adorava perambular pela selva de palavras. Com certeza eu seria salvo!
O frio era muito intenso.  Ainda bem que eu havia juntado alguns morfemas gostosos, eram frutinhas de aparência horrorosa, mas após agente se acostumar, ficam aceitáveis ao paladar. Não podia negar que os morfemas são úteis nessa floresta terrível! Vejam bem, é bom ter cuidado. As desinências são frutinhas que podem provocar dor de barriga, e como todos sabem, na mata a desidratação pode ser fatal!  É preciso conhecer bem a floresta das palavras para sobreviver. Por isso que a maioria das pessoas não sobrevivem nela.
O sono era tão intenso que amontoei adjetivos para travesseiros. Pedaços de substantivos cobriam-me. Sem fome e um pouco aquecido, iria sobreviver ao medo e aos animais perigosos. Com muita sorte os advérbios fatais e preposições assassinas nem perceberiam que eu estava ali, indefeso. Eu sou um sujeito de sorte, sempre fui. Já tinha sobrevivido muitas vezes naquela floresta complexa e perigosa. Eu era forte, iria ficar vivo e contar para os outros minha experiência!
Acordei ouvindo gritos! Haviam me encontrado! Quanta alegria! Eram corajosos policiais da guarda sintática! Armados com períodos simples, estavam seguros contra os terrores da selva. Finalmente estava feliz. Finalmente sairia bem da minha aventura. Aprendi muito. Quando eu voltar, e sempre voltarei, estarei mais preparado. Nenhum adjunto adnominal ou complemento verbal fará com que eu desista da selva.
Ufa! Estou cansado.  Mas aguardem-me! Logo terei mais aventuras para contar.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Bom dia! Boa noite!

Amilcar Bernardi 

A luz veio. Veio bem lenta.
Pobre de início. Depois opulenta.

Sombras indo, fugindo...
Sombras se despedindo...

Bom dia! Disse alegre o sol dourado...
Adeus! Disse o negror já tão cansado!

E a luz adeja,
A luz voeja...

Ela vem com asas douradas
Das altas nuvens encantadas

A luz vem a noite empurrando
vem sobre as casas voejando...

Bom dia! Disse alegre o sol dourado...
Adeus! Disse o negror já tão cansado!

A noite bocejou indo, fugindo...
Estrelas fecham seus olhos se despedindo...

Bom dia! Disse alegre o sol dourado...
Adeus! Disse o negror já tão cansado!

Vaga-lumes vão dormir
Borboletas vão surgir

O guarda noturno vai pra cama
O despertador a aluna chama

Bom dia! Disse alegre o sol dourado...
Adeus! Disse o negror já tão cansado!

O sol forte sua luz irradia
Foi-se a noite, veio o dia

Festa, festa, tudo agora é dourado!
Festa, festa é dia ensolarado!

Bom dia! Disse alegre o sol dourado...
Adeus! Disse o negror já tão cansado!

Criança e velho

Amilcar Bernardi
Criança e velho: sou ambos. Alegre e triste: sou ambos. Pólo positivo e negativo: sou ambos. Então, sou bipolar.
Fiquei pensando sobre os altos e baixos que sofro, que sou. Sou contraditório nas emoções que sinto. Sou feliz beirando a infelicidade e quando acredito estar vitimado pela tristeza, a alegria já me bate às portas da alma.  Uma coisa não vive sem a outra em mim. 
Quando ajo como adulto a criança que sou reclama fazendo birra, jogando-se ao chão e gritando por atenção como toda a criança mimada, como todo filho unigênito. Quando estou, então, agindo como um infantil, o senhor austero que também sou eu, adverte-me, admoesta-me. Procuro então o equilíbrio, a mediania. Mas a mediania sugere mediocridade (aquele que é mediano), então me desequilibro voltando a ser uma adulto criança e vice versa.
Sou passageiro. Vou passar pelo mundo. Sou temporário. Porém, vou ficar na história dos que vão contar-me. Sou atemporal e eterno porque o que escrevo ficará (espero que ninguém delete o que escrevi! PeloamordeDeus!). Então eu passo ficando e fico passando.
Dias melhores virão. O que significa que dias piores aconteceram.  O pior em mim está grávido do melhor que virá. E o melhor que virá só é melhor porque é filho do pior que houve. Eu sou o pior e o melhor. E vice versa.
Eu sou, eu existo porque o amanhã ainda não existe, porque sou livre num futuro que ainda não aconteceu. Eu existo hoje porque não existo no futuro. Eu sou existência e inexistência, portanto.
Estou pensando coisas hoje. Cheguei a conclusão que a beleza da vida é ser isso, uma Montanha Russa. Ela é ao mesmo tempo altos e baixos, curvas e retas, gravidade positiva e negativa, medo e alegria. Então já sei o que somos: Montanhas Russas.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Sonho estranho de criança estranha!

 Amilcar Bernardi
 Sonho estranho
Pulava o pulo
Estranho sonho
Sonhava acordado
Muito estranho sonhar
Sonhar o sonho sonhado
Criança estranha aquela
Sonhava cantando
Criança que era um sonho!
Dormia na  aula: sonhava a aula
Dormia na igreja: sonhava com anjos
Dormia até tarde: sonhava bem cedo.
Acordava cedo: sonhava até tarde.
Criança estranha que sonhava tanto
Tanto sonhava que era um sonho de criança
Um dia sonhou tanto, mas tanto sonhou...
Sonhou que era poeta, que era um poema
Na Academia Brasileira de letras
O poeta dormiu, mas dormiu tanto
Que sonhou muito, muito mesmo...
Sonhou que era uma criança que sonhava...
Que sonhava ser um grande poeta!


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O veredito

Prof. Amilcar Bernardi


Ele não era novato na direção da escola. Porém, sempre que a questão era grave  sentia-se como se fosse um novato. Quando a coisa era séria, tinha um olhar de primeira vez, sempre.  Cada movimento para solucionar o problema era precedido de reflexão intensa. Sabia que nenhuma questão que envolva pessoas é simples. A obviedade não existe, muito menos a previsibilidade.  As pessoas são assim mesmo, imprevisíveis. Assim tem que ser. Atrás da sua mesa muitas vezes sentia-se como um juiz. As pessoas queriam sua palavra final. Apenas isso, uma palavra final. E como não dá-la? Seria possível um diretor que não finalizasse as questões, pelo menos as mais difíceis? Sabia que a autonomia das pessoas que constituíam a equipe diretiva, era relativa. A democracia também era relativa. Tinha consciência que uma hora ou outra, entre muitas opiniões e votos da maioria, ele, o diretor, teria que dar um basta.

Naquela manhã novamente a situação de ter que decidir absolutamente estava posta. Em frente a mesa, sentado como um réu estava o aluno. Quatorze anos. Boas notas, porém, indisciplinado e arrogante. Pessoa de difícil trato. Jogava papel nos colegas e negava. Quando era pego em “flagrante”, afirmava que não estava sozinho e dedurava os colegas. Sentava no fundo da sala. Cabelo despenteado, tapava os olhos.  Com frequência sacudia os ombros para dizer que não dava importância para a escola. Já havia sido advertido e suspenso. Muita conversa com a psicóloga da escola e nada. Os pais estavam cientes da arrogância e do egocentrismo.

O guri estava a sua frente, quieto. Olhar altivo. A professora havia pedido para que ele sentasse em outro lugar. Ele negou-se. Disse que não iria e pronto. Claro, foi parar na direção. A professora esperava uma atitude firme do diretor. Os colegas  dele também porque o guri não era suportado mais. Os pais dos colegas haviam reclamado do aluno-réu. Com exceção da psicóloga, todos e tudo depunham contra ele.

A psicóloga pedia mais diálogo, mais tempo para trabalhar com o jovem. Afirmava que as tramas da vida dele impunham sofrimento psíquico. E tal dor materializava-se no comportamento em sala de aula. Ela afirmava que o guri pedia socorro aos adultos de uma forma equivocada, porém, era ainda uma mensagem de socorro. Lembrava sempre à equipe que as famílias eram problemáticas, que elas não davam mais conta da educação dos filhos. As questões familiares eram atenuantes. Era preciso, portanto, compreende-lo e acolhê-lo. Dizia com convicção que não era papel da escola julga-lo ou puni-lo. Escola não é, segundo ela, local de justiçamento ou de linchamento de alunos. Ela era uma boa advogada de defesa. Sim, fazia sentido a fala da psicóloga-advogada-de-defesa.

Por outro lado havia os professores, os colegas do guri e os anseios dos pais. No conselho de classe todos foram unânimes: ele era bom em notas e terrível em comportamento. Era debochado e insensível. Era conversador e fazia brincadeiras de mau gosto.  Os colegas não queriam mais fazer trabalhos escolares com ele, afinal, não fazia sua parte ou era retirado da sala de aula momentos antes de apresentar o trabalho! Como ele incomodava o pessoal do fundo, os colegas passaram a reclamar que não aprendiam, que não conseguiam ficar atentos à aula porque o guri atrapalhava. Contavam em casa e os pais ligavam para o diretor reclamando uma solução para o caso. Até os funcionários reclamavam da petulância dele. Jogava coisas no chão porque, segundo o petulante, a escola tinha faxineiros para limpar.

Na sala do diretor estava o adolescente. Os professores lá estavam também, a espera de um desfecho. Os pais idem. Os responsáveis pelo guri queriam a absolvição. Os pais dos colegas queriam a pena capital. Já a mídia desejava escândalo, qualquer que fosse. Advogados a espreita para defender o menor.  O sindicato dos professores esperava a defesa dos interesses dos seus filiados, da mesma forma que a mantenedora da escola queria a defesa dos seus interesses. Também o aluno, por si só, já era uma exigência ética. Ele era um ser humano, portanto, digno, com direitos e com a necessidade civilizatória de ser tratado sempre e incondicionalmente,  com justiça.

O relógio grande de parede marcava os segundos passando. Tudo havia sido dito. Acusação e defesa haviam explanado seus pontos de vista. Era chegado o momento da decisão, do veredito.  O público escolar esperava o resultado como num grande julgamento ou como num grande circo. Haviam palmas guardadas e impropérios. Com certeza, para o diretor, ambos aconteceriam. Os contentes com o resultado aplaudiriam. Os descontentes clamariam por justiça. Seja qual fosse o resultado, não havia escapatória, o diretor seria julgado também.

Repentinamente o diretor escreve algo de próprio punho. Na verdade dois documentos ele escreveu e assinou. Em um a expulsão imediata do aluno. No outro o seu pedido de exoneração. Achou melhor assim, se o jovem falhou o diretor também falhou. Expulsão para os dois. Caso resolvido. Que venham outros alunos.

domingo, 2 de outubro de 2011

Lonjuras...

Amilcar Bernardi

Como se eu andasse lento
E tu rápido....
Ah! Como lamento!

Como se eu fosse terra
E tu fosses céu!
Isso me desespera!

Como se eu fosse pó
E tu fosses vento...
Isso me deixa tão só!

Como se eu fosse nada
E tu fosses tudo!
Ah! Minha alma por ti iluminada!

Eu sou sombra
Tu és luz
Tal diferença me assombra!

Eu estou tão perto
E tu tão longe...
Ah! Só nos une o verso!